Enxergar com lentes decoloniais para a Amazônia é humanizar quem vive aqui. Esse é um exercício para além das obviedades, das temporalidades, que todo dia reforça um estereótipo de um lugar que não é real, e que na verdade está muito longe do que as pessoas imaginam.
Hoje, 5 de setembro de 2025, dia da Amazônia e a há um pouco mais de 2 meses para COP 30, os debates seguem de maneira xenofóbica e preconceituosa, colocando a região em um lugar que não pertence a ela. Com 76% da população amazônica brasileira vivendo em áreas urbanas, os debates sobre a realização da COP 30 em Belém precisam ser muito mais aprofundados, porque aqui, nessa terra, existem pessoas reais, que compartilham histórias, dores e memórias.
Em meio a tantos problemas que a região enfrenta, será que o legado da COP será marcado por obras? Aliás, obras que, na sua grande maioria, estão localizadas no centro da cidade, ignorando as baixadas, violando o direito das pessoas e negado o mínimo: o acesso ao básico, ao saneamento e à dignidade.
Parques lineares são construídos no centro da cidade, enquanto nas baixadas as obras são realizadas para aterrar e canalizar os rios, limitando o acesso à natureza e expulsando as pessoas dos lugares que nutrem relações que vão para além da moradia, um território que para elas é lar, é lembrança.
Do lado daqui, a Mandí vem construindo um trabalho cada vez mais robusto sobre direito à água e ao saneamento básico, incidindo para colocar a pauta no centro das discussões sobre mudanças climáticas. Um debate que para o Norte global é distante, mas que para o Sul global, em especial para a Amazônia, é a base para que se possa alcançar a justiça climática, social e hídrica. Segundo dados presentes na nossa pesquisa ”Água, Saneamento e Clima: estratégias para outros futuros nas cidades amazônicas”, em Belém, a cidade da COP30, aproximadamente 717 mil pessoas vivem em áreas de alto risco de inundação, o que representa 51,5% da população total do município. Entre essas pessoas, 527 mil são negras (39,9%), 889 são indígenas (0,07%), 30 mil vivem sem nenhuma renda (2,2%) e 87 mil são mulheres chefes de família (6,3%).
Por isso, por meio de nossas frentes de atuação buscamos construir educação e produção de conhecimento emancipadora, da incidência política e participação social, mobilização e comunicação popular, buscamos reafirmar esse território como um lugar vivo. Queremos que mulheres, jovens e comunidades urbano-periféricas se apropriem do debate sobre saneamento como estratégia de adaptação climática e redução das desigualdades sociais e com acesso à direito à água e saneamento.
Nós partimos da Amazônia para o mundo, entendendo que nosso trabalho no local constroi pontes com o global, na perspectiva que tanto os problemas quanto as soluções podem ser compartilhados e que falar da Amazônia é falar do mundo.







